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Underworld
Só que aí eu o vi. Onipresente, em sua máxima plenitude. Generoso, quente, quase brilhante, elevando-se com a respiração de sua dona. O Decote. O colo ali tão bem ornamentado.
Tentei desviar o olhar, afinal não ficava bem. O momento era o mais inoportuno possível. O decote não me pertencia. Mas os olhos viciados acompanhavam o subir e descer do quase arfante peito. Os seios firmes e tão belamente desenhados, embalados no generoso e cruel decote.
Tentei voltar minha atenção para o que realmente importava. Estava lá com uma missão. E, afinal de contas, era só endireitar-me e olhar para diante, deixando o provocativo decote para trás, onde deveria ficar. Mas ardia na mente a imagem do decote. Ah, pecado em formas curvilíneas...
Obriguei-me a olhar para a simpática portadora de tão refinada tortura. Sorri-lhe, e era um sorriso franco. Na conversa, os sorrisos iam e vinham em igual proporção.
“Diacho, mas é toda bonita... ainda que o decote seja a chave de tudo, não nego, não consigo negar...”
Olhei-o avidamente, traindo minha própria decisão.
“Estúpido, sem caráter, infame, esse sou eu neste momento especial, quando minha atenção deveria estar voltada para mil coisas, nunca para esse maldito decote!”
Maldito uma vírgula!
Decote risonho, safado, esperto como uma raposa, mas ainda o mestre da compostura.
Como entender seu poder?
Mais importante, como escapar de seu domínio?
Feroz com meus impulsos primitivos, endireitei-me e abandonei aquela imagem deliciosa.
Cumpri minha missão, dediquei-me totalmente ao que vinha fazer e saboreei a noite tão especial. Estava salvo.
Final da noite, preciso me despedir. Já se foram os meus e não podia me demorar.
Mas o decote brilhava no escuro novamente (e como fui encontrá-lo assim, no meio de tudo, mesmo tendo me afastado o tempo todo?). No calor da noite, agora parecia levemente umedecido pelo suor dos seios que protegia e exaltava, o suor de uma eroticidade inexplicável pelos padrões da civilidade.
Despedi-me. Mas encarei o decote, terrivelmente incapaz de desviar meus olhos daquela carne quente, atraente, viva.
Teria percebido? E como não teria?
Não disse nada, não fez nada que indicasse a compreensão do meu crime. Ela, ao menos, estava verdadeiramente conectada com o momento, com a celebração que havíamos nos empenhado em vivenciar naquela noite. Ou era educada demais para punir-me como devia.
Fugi educadamente, retomando minha vida de antes. Escapando das garras aromáticas que transpiravam daquela armadilha escultural.
Vergonha?
Deveria. E tenho, confesso. Não é correto, não é direito, é absolutamente um despropósito, ainda mais em contexto.
Mas a fera ainda uiva deslumbrada, saboreando a visão onírica daquelas duas luas cheias semi protegidas, semi reveladas, convidativas em sua totalidade.
