Outras Noites
Gaudeat illa domus, quando bonus est ibi promus

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Ego
Gaudium est miseris socios habere poenarum






Underworld














sexta-feira, abril 29, 2005


Liguei para ela, mas nada de encontrá-la. Antes teria sido mais fácil, mas eu não aproveitei totalmente a oportunidade. Em parte por uma questão de princípios morais, em parte por uma questão de preguiça (pensando na ritualística inevitável da coisa, o processo todo pode ser chato, custoso e demorado; ademais, não sou fã de ficar criando assunto com pessoas de limitada capacidade de comunicação, com uma nítida restrição de domínio de temas diversificados).
Hoje, como antes, o objetivo é o mesmo. Mas pode ser um pouco mais divertido, se bem ministrado.
Falei com a mãe dela. Uma conversa tediosa, afogada na religiosidade medíocre em que a boa senhora vive. Uma senhora bacana, confesso. Mas ainda mais limitada.
Conversar com as mães é sempre uma ótima jogada. Você ganha credibilidade, maior espaço de atuação, se torna mais confiável. Ter a mãe ao seu lado não é fundamental, mas é tremendamente valioso.
Não me importo de esperar um pouco mais para encontrá-la. Nem de ter que suportar essas conversas irrelevantes com a velha mãe.
O tempo pode me ser útil para me livrar das indigestas gorduras a mais que venho acumulando. As conversas com a mãe facilitam minha reentrada no cotidiano da filha.
A atração é meramente física, ao menos de minha parte. Nunca ouvi nada de verdadeiramente aproveitável vindo dela, por mais gentil e bem intencionada que seja.
É uma dessas pessoas que vivem sem a menor perspectiva de um futuro mais promissor (e aparentemente não se inquietam com esse trágico fim).
Não é exatamente bonita, mas é interessante, exótica. Atraente desse modo inquietante, essa aparência instigante que inevitavelmente me atrai.
Ruiva, além de tudo. As ruivas me atraem, de um modo geral.
Nos olhávamos no ônibus. Na verdade, eu não pensava que meu interesse era correspondido. Quando percebi que sim, investi com cautela e tranqüilidade. Foi um encaixe perfeito.
A história se arrastou por um longo tempo. As coisas esquentavam muito em inúmeras ocasiões, quase chegando a ferver, mas alguma coisa atrapalhava pouco antes de chegarmos ao ponto de ebulição (ou de bolinação?). Ela ficava doente, eu sumia, alguém próximo a mim adoecia, a consciência pesava... sei lá, não se pode culpar o “destino”, mas é certo que coisas externas davam sua contribuição na hora de frustrar os planos mais indecentes.
Agora, não.
Dessa vez, pretendo ir até o fim. Pela ótica do canalha, o que já fiz se configura plenamente como traição. Não ir até o fim não altera minha sentença. Então, ao menos, que eu me sirva de uma deliciosa última refeição antes de qualquer possível execução.
Sim, o desejo sobrepuja qualquer moralidade nesse caso em particular.
Mesmo sabendo que ela tem levado uma vida miserável, com privações bastante cruéis.
Mesmo sabendo que, a essa altura do campeonato, o que ela deseja é um relacionamento estável, regado à confiança mútua, e não uma aventura sexual fetichista.
Mesmo sentindo uma afeição por ela, o que deveria, de algum modo, me inibir a causar-lhe algum desconforto futuro.
Mesmo sabendo que a cerca que me rodeia, fui eu quem a criou. Por livre e espontânea vontade. Porque eu acreditava nisso. E, se agora eu preciso pulá-la, é culpa e irresponsabilidade toda minha. E os estragos que disso certamente virão, ficarão como nódoas na minha história particular.
Porque, no final das contas, eu sou egoísta e indolente o suficiente para isso.
Para ouvir mais o animal do que o racional.
Culpa, sim.
Mas quando eu estiver embriagado no cheiro feminino que ela exalará, molhado com o suor que lhe cobrirá as coxas macias, isso tudo parecerá banal e sem importância...

Delirado e vociferado por Karl Ruprect Kroenen, 9:25:00 AM .

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