Outras Noites
Gaudeat illa domus, quando bonus est ibi promus

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Ego
Gaudium est miseris socios habere poenarum






Underworld














sexta-feira, outubro 21, 2005


Eu não vou dizer que a amo. Não vou mostrar meus olhos vermelhos, cansados de fazer refletir em lágrimas sua imagem, tão vivamente impressa em cada fagulha de memória que ainda me sobra.
Não vou falar sobre as noites não dormidas, horas se arrastando na penumbra faminta, a boca monstruosa saboreando cada sentimento que me escapava num soluço.
Não vou falar da dor aguda que apertou cada osso e músculo do meu corpo, esmigalhando lentamente o que eu era, como num abraço maldito de serpente.
Não deixarei que saiba do veneno que escorreu de minha alma, manchando lençóis, cama, quarto, casa, comida, sonhos, vida.
Entardeceu em meus olhos e o Sol se pôs de maneira definitiva, mas não lhe direi isso.
Não lhe contarei das manhãs cinzentas, das tardes cinzentas, das noites cinzentas. Este cinza modorrento, escorregadio, infecto e contagioso.
Não abrirei as portas do que sou para que veja quão putrefata se tornou a moradia que já fui. As cortinas sujas, se não mais enfeitam, ao menos cobrirão as janelas tortas, evitando que vejam lá de fora a desolação que se apossou de mim.
Não lhe direi nada sobre as promessas desesperadas, as superstições exageradas, as pragas rogadas.
Não lhe direi nada.
Não compartilharei com ela nem mesmo esta dor infernal, este desgosto obsceno, esta praga imunda que se tornou o centro de minhas emoções.
Acabou e não há o que compartilhar.
Não lhe darei este gosto.
Não lhe darei este desgosto.
Não lhe darei nada, pois nada há para se dar.
Sobrando somente a casca, sou apenas um buraco negro, assobiando quando o vento da angústia passa, vez ou outra.
Preenchido tão somente pelo vazio completo do não ser.
E mesmo isso, que é tão pouco, tão fútil e mesquinho, guardarei só para mim, este fóssil preservado no âmbar do desencanto.
Se for o que sobrou de minha existência, comigo ficará; pois já não posso dar-lhe mais qualquer coisa do que é meu...

Delirado e vociferado por Karl Ruprect Kroenen, 12:13:00 PM .

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