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Underworld
Confesso que relutei em falar dela por aqui. Afinal, parece até maldição: bastou escrever sobre uma fulana nesse espaço e a danada some, minhas chances escorrendo pelos dedos.
Aí lembrei que não acredito nessa merda toda e relaxei.
Escrever poderia ser, como sempre, alguma espécie masoquista de alívio.
Contra fatos não há argumentos e é assim que as coisas se mostram: eu detesto estar sozinho.
Tenho aquela carência estúpida de precisar compartilhar um mínimo de amor, de intimidade com alguém.
Se não há uma garota para quem eu possa cometer uma série de tolices românticas, o idiota do meu coração bate torto. Fico pensativo, resguardado.
Muito provavelmente, meu último relacionamento com aquela carola (e não é dela que vim falar) foi quase todo baseado na minha carência, uma vez que carinho efetivo não vinha do lado de lá.
Podre reconhecer que você manteve um relacionamento morno exclusivamente para não estar sozinho.
Quando acabou, nova onda depressiva se abateu.
Até que, um belo dia, levantei com o pé direito. Na noite anterior pude ver que meu charme não estava perdido, nem meu amor próprio.
Eu estava no jogo, bastava querer jogar.
Mas nem isso eu queria. Estava bem ali comigo mesmo.
E ela apareceu.
Nunca tinha reparado nela (e a recíproca era verdadeira). Mas lá estávamos nós, em um lugar totalmente inadequado, trocando olhares.
Não, espera um pouco. Não foi bem assim.
Eu cheguei atrasado e a festa já tinha começado fazia tempo. Fiz umas graças, vi umas garotas bonitas, joguei algum charme ao vento, sem qualquer alvo definido. E, até ali, continuava sem notá-la.
Aconteceu de uma das minhas graças (sem graça) abrir um espaço para uma sutil provocação vinda do lado de lá. Não sei se foi logo na primeira ou na segunda, entendi o recado. Talvez tenha sido na segunda, uma vez que antes eu deveria estar perdido na minha própria capacidade de gerar piadinhas tolas em seqüência.
E aí eu a notei. E gostei cada vez mais do que notava.
Arrisquei algumas provocações e terminei a noite arrumando um modo de entrar em contato. Mal não faria. De volta ao jogo!
O passeio foi tão gostoso... O cheiro dela, a pele dela, o gosto dela.
Agora já nem sei quanto daquilo foi real, quanto daquilo nasceu da minha vontade de estar mesmo com alguém. Mas que saudade daquilo tudo, toda ela, cada gosto em particular.
Não passou de um comportado e romântico primeiro encontro. Dado o intervalo forçado em que minha vida sexual se encontra, não foi problema algum.
De fato, subir pelas paredes e tomar um banho frio já é rotina, então eu aguardo aquele momento certo de trazer alguém novamente para debaixo da minha pele, para dentro das minhas veias.
Aí todo aquele turbilhão de indecisão, as dores do relacionamento anterior ferindo-lhe o presente e o futuro, a dificuldade em libertar-se do esqueleto pútrido da vida que não mais havia. Ah, e como eu sei a dor que isso traz. Como sei o quanto pena aquele que ainda ama o que não se tem mais para amar.
Depois, novos encontros. Troca de carinho, de elogios, alguns dos quais quase inéditos para mim. E então, o espaço de tempo dolorosamente seguindo sem que houvesse condições para evolução.
Que faço eu agora?
Passo os dias alimentando a esperança de que ela seja muito mais forte do que eu fui e supere tão mais rápido tudo isso.
Que caia nos meus braços, que a apertarão forte e não largarão tão cedo (não antes do café da manhã).
Por que insisto em esperar, em acreditar que algo aparentemente falido irá ganhar força e forma?
Diabos, como fui me apaixonar tão rápido?
Tão poucos encontros, tão poucos beijos, tanta vontade de agarrá-la e fazê-la rir até perder o ar.
Quanto disso é paixão?
Quanto disso é solidão?
Quanto disso vale alguma coisa?
Deus, será que ainda vamos ter todos aqueles pequenos momentos que são tão valiosos quando se pode amar alguém?
Queria poder seguir com ela. Ou, ao menos, ter o mínimo de força para seguir sem.
Mas fico aqui, amarrado, entre o angustiado e o apaixonado, entre o sonhador e o derrotado.
Hoje, já não sei diferenciar mais nada.
Só consigo pensar em seu sabor intenso, a vontade de alimentar-me dela até o fim dos meus dias.
A esperança é pouca, mas como é bom poder segurá-la nas mãos mais um pouco, esperando a mudança tão desejada.
